segunda-feira, 15 de maio de 2017

Eu vi a coragem do Povo e a repressão praticada por aqueles que deveriam cuidar da “ordem”.

           Na  última sexta, dia 28 de abril, data escolhida para a greve geral e atos contra as reformas trabalhista e previdenciária que o governo quer nos impor. Precisávamos (eu e Milena, uma de minhas filhas), como de costume, estar junto às ansiedades e caminhada do povo e a este evento marcante para os novos rumos da história brasileira.
De início fomos à Cinelândia, onde concentravam-se centrais sindicais e várias categorias sindicais, entre elas:  saúde, petroleira, educação, químicos etc. Encontrava-se também a postos um cordão  da tropa de choque da PMRJ, prontamente equipada com escudos, bombas e cassetetes, na entrada principal do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a fim de inibir o acesso dos manifestantes às escadarias deste. Observamos toda a  movimentação  e dali  partimos  em direção à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro  (ALERJ), um dos principais pontos de encontro da atual luta popular. Onde também já encontrava-se a postos, no alto das escadarias, mais um cordão da PMRJ.
               Lá já estava concentrada uma multidão, e partimos em direção à igreja da Candelária. Logo fomos surpreendidos pelo estouro de bombas e gás lacrimogênio (gás de pimenta) que partiam da parte posterior à multidão. Os manifestantes mais próximos e atingidos pelo gás comprimiam-se em meio à multidão e a cortina de fumaça na tentativa de alcançar a primeira esquina  para se proteger.  Dentre a multidão, havia famílias com crianças, idosos e idosas, universitários, jornalistas e centenas de trabalhadores e trabalhadoras. 
Recuperadas dos efeitos dos gases, juntamente com outras pessoas, retornamos à multidão. Chegamos  à Igreja da Candelária, e numa mureta, filmamos parte da multidão, quando visualizamos os “mascarados” adentrando na avenida, com arruaças e quebra-quebra, migrando para o lado direito da mesma Avenida, destruindo  vidraças de uma agência bancária, ao passo que a multidão seguia sua trajetória com palavras de ordem atrás do carro de som, pelo lado esquerdo desta mesma Avenida. Ao cruzar a lateral da igreja da Candelária, havia um novo cordão da PMRJ na espera, que observavam de longe a ação dos mascarados. Helicópteros apareceram sobrevoando a região.  Adiante, havia inesperadamente mais um cordão da PMRJ que logo avançou em direção à multidão novamente com bombas de gás e também com tiros de borracha. Iniciou-se então novo enfrentamento e correria.
O intrigante deste momento, foi que mesmo o grupo de mascarados efetuando suas ações do lado direito da Avenida Pres. Vargas, toda a investida policial, concentrou-se do lado esquerdo, onde passavam os manifestantes pacificamente.
               Houve muita correria e dispersão dos manifestantes e em meio  ao corre-corre e ação do gás, pessoas passaram mal. Correndo, entramos na Rua Uruguaiana, abrigando-nos em uma lanchonete, a qual estava fechando as portas devido à cortina de fumaça. Permanecemos lá por mais ou menos 30 minutos,  junto a um grupo de universitários vindos da cidade de Rio das Ostras. Nesta  lanchonete, assistimos algumas transmissões ao vivo de uma “grande emissora de televisão brasileira”, que divulgava imagens distorcidas sobre o fato ocorrido.
             É nítida a inversão de valores, a insistência na apresentação de imagens que são favoráveis ao que eles querem que acreditemos. São  mentiras descaradas.
             Logo seguimos em direção para o Largo da Carioca, onde tinham novos cercos policiais restringindo as passagens de acesso à Cinelândia e nitidamente ouviam-se estouros de bombas vindos de lá. Contornamos pela Av. Chile, na esperança de chegarmos e continuarmos a manifestação. 




Na Rua das Marrecas,  muitos grupos dispersos, que vinham retornando da Cinelândia devido à violência instaurada pela PMRJ, e insistentemente helicópteros sobrevoavam em baixa altura ruidosamente.
Recomeçam os tiros cada vez mais próximos e decidimos retornar para casa.   Observamos ainda, mais policiais saindo do Quartel General com seus blindados da Rua Evaristo da Veiga indo em direção à Cinelândia.
No caminho de volta para casa, vínhamos refletindo sobre a coragem do povo, abafada pela covardia e repressão dos Poderes do Estado. Mesmo tristes, cada cidadã e cidadão tinham exercido seu direito de ir às ruas em busca de melhores dias e  a certeza de que a multidão  que cumpriu seu papel e que foi violentada, se recuperará e retomará o que é seu por direito.

                                                         Janete J. Martins
                                                         CEBI RJ


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