quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Artigo de Miqueias do mês da Bíblia(ICAR) 2016. Profeta Miqueias: seu povo, sua terra e sua proposta. Valdeci de Oliveira Biro - CEBI Volta Redonda(RJ)

Profeta Miqueias: seu povo, sua terra e sua proposta.  
Deus pode preencher com o seu amor os nossos corações,
  e permitir que caminhemos juntos em direção à Terra da liberdade e da vida”. 
Papa Francisco ‏@Pontifex_pt  24 de maio 2016 

Miqueias nasceu em Morasti (1,1), é a mesma Morasti-Gat, um arraialzinho do Reino de Judá, próxima da cidade Jerusalém uns 35 quilômetros. Fato importante, que esses dados nos situam num ambiente de interior, ou seja, da roça, o mundo do campesinato, em contato direto com problemas dos pequenos agricultores familiares, vitimas dos grandes donos de terra. O latifúndio. Olhando mais a frente, o arraialzinho de Morasti encontra-se rodeado de fortalezas; em círculos de dez quilômetros; surgem-nos outros arraialzinhos como Azeca, Soco, Adulam; Maresa e Laquês. A presença de militares e funcionários do Rei era frequente naquela região e, pelo que afirma o profeta, essa presença não era vista com bons olhos. Além do pagamento dos altos impostos; trabalhadores eram recrutados forçadamente a fazerem parte do exército para proteger a cidade Jerusalém (cf.3,10). A dominação dos grandes donos de terra, impostos altíssimos, roubos a mão armada por milicianos da época, trabalho escravagista, é o ambiente que se respirava.  
Sobre a posição social do Profeta Miqueias, era considerado “homem do campo (Smith). Homem simples do campo (Sellin), ou até situam nos círculos dos pequenos camponeses donos de rebanho, [que eram] oprimidos (Weiser). Wolf o julga personagem importante, tzaqen (justo) preocupado com as injustiças que sofrem seus irmãos. Seus argumentos não se mostram apodíticos [1] e talvez seja melhor manter o posicionamento de Rudolf: Miqueias pode ter sido camponês pobre, trabalhador do campo ou proprietário de pequenas terras [2]”. 
O livro de Miqueias situa seu profetismo durante os reinados de Joatão, Acaz e Ezequias, entre os anos 740-698. Neste contexto, a injustiça provocada pelos donos de terra (2,1-5) aconteceu em vários momentos neste cenário. De qualquer forma, relativamente, a data de atividade profética de Miqueias, ainda é debatida abertamente, ou seja, ainda não se tem um consenso pelos anos de atuação do profeta. Mas, segundo biblista José Maria Sicre: o texto 1,2-7 tem a Samaria capital do Reino do Norte; escrito entre 722 e 725, quando se inicia o cerco dominado dos Assírios. Por outro lado, temos a tradição do grupo do profeta Jeremias 26,18 que Miqueias atuou no tempo do rei Ezequias. Então podemos indicar como data aproximada da atividade do profeta Miqueias os anos de 727-701[3]. O profeta Isaías também foi contemporâneo do profeta Miqueias.  
A pregação de Miqueias concerne essencialmente á situação da moral religiosa de Judá. A falsa insegurança denuncia o profeta permanecendo fiel a Deus e a seu compromisso. O mal se tornou tão radical que a Samaria e Jerusalém aparecem como personificação do pecado (Mq 1,5).  
Na sua luta, Miqueias aparece como um homem solitário, só diante do povo cujo sofrimento partilha, só diante dos poderosos (sacerdotes, juízes e príncipes, cf. Mq 3), só diante dos profetas cegos que anunciam um futuro de felicidade e facilidade ( Mq 2,6-11 ). Mas enfrentam - os com coragem, e consciente de ser conduzido pelo Espírito do Senhor, que lhe dá a força de cumprir sua missão (Mq 3,8).     
                                                           
NOTAS REFERÊNCIAIS: 
[1] Apodítico: Diz se de uma verdade ou argumento evidentes por si, não necessitando de provas para serem compreendidos e aceitos. (LAPORTE, Ana Maria et al. Para Filosofar. São Paulo: Scipione, [S.d.], p. 305). http://verbofilosofico.blogspot.com.br/2011/03/apoditico.html <acessado 27 de maio 2016>.
[2] SICRE, José Luiz. Com os pobres da Terra. A Justiça Social dos Profetas de Israel. Tradução de Carlos Feliciano da Silveira. - Santo André. São Paulo: Ed. Academia Cristã Ltda; Paulus Editora, 2011, p. 324.
 [3] SICRE, José Luiz, p.325.   

Valdeci de Oliveira Biro é Pós-Graduado em Especialização Bíblica na Área de Assessoria e Metodologia Pelo CEBI e Faculdade EST: Escola Superior de Teologia Luterana de São Leopoldo-RS.
Membro da ABIB: Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica do Brasil-SP.
Apresenta o Programa especializado em Bíblia: Palavras e Mensagem na Rádio Sintonia do Vale 98,9 FM


domingo, 17 de julho de 2016

Miriam, uma história de luta do povo hebreu. João Crispim Victorio - CEBI-RJ/Sub-regional Campo Grande.

Miriam, uma história de luta do povo hebreu.

João Crispim Victorio[i]


Nos relatos Bíblicos[1] é comum encontrarmos, de maneira destacada, personagens masculinos, homens que foram instrumentos de Deus na caminhada e na preservação do seu povo. Mas existiram também as personagens femininas e, entre muitas, destaco aqui Miriam, por sua fé e capacidade de liderar, junto com seu irmão Moisés, a saída do povo hebreu da escravidão do Egito. Miriam, após a libertação do povo hebreu[2], foi uma grande líder durante a travessia no deserto, foi orientadora, animadora e consoladora entre as mulheres. Sofreu com a hanseníase (lepra) por ter ofendido a Deus e a Moisés, mas percebeu seu erro, arrependeu-se e viveu ainda por muitos anos cumprindo seu papel de liderança entre os seus.
São nos textos do Antigo Testamento[3], mais precisamente no Pentateuco[4], com exceção do livro de Gênesis, que vamos conhecer a história de Miriam e do povo hebreu. Povo que se distinguiu de outros da antiguidade por sua crença no Deus único, crença que veio depois influenciar o judaímos, cristianismo e islamismo. Os hebreus, inicialmente, eram um grupo de pastores nômades, organizados em tribos formadas por pequenos clãs[5], chefiadas por patriarcas. Os principais patriarcas foram Abraão, Isaac e Jacó, também chamado Israel. Os hebreus deixaram a Mesopotâmia e se fixaram na Palestina, uma pequena faixa de terra, que se estendia pelo vale do rio Jordão. Viveram lá durante três séculos. Mas uma terrível seca atingiu toda a região obrigando-os a sair em busca de melhores condições de vida. Assim chegaram ao Egito[6].
Nas terras do Egito, os hebreus foram recebidos por José, o filho de Jacó e Raquel (Gn 30, 22 - 24), que por ironia anos antes fora vendido por seus irmãos como escravo aos mercadores ismaelitas e, esses, tempos depois o vendiam aos egípcios (Gn 37, 1 - 36). José conquistou a confiança de Potifar, o oficial da corte do faraó e chefe da guarda pessoal, que o comprou e com o passar do tempo tornou-se homem de confiança do Faraó (Gn 39, 1 - 6). Durante esse período os filhos de Jacó entraram no Egito e se multiplicaram tornando-se cada vez mais numeroros, a tal ponto que o Egito ficou repleto deles (Ex 1,7). Os faraós, que vieram pós José, passaram a limitar o crescimento do povo hebreu. Então os egípcios obrigavam os hebreus ao trabalho duro, tornando-lhes amarga a vida (Ex 1,13-14). Outra medida para conter o crescimento do povo de Israel foi ordenar as parteiras que matassem todos os meninos recém-nascidos (Ex 1, 22).
Nesse contexto, surge a figura de Miriam, irmã mais velha de Arão e de Moisés. Ela, ainda uma menina, vigiava o cesto colocado a propria sorte por sua mãe na margem do rio Nilo. Dentro estava seu irmão Moisés, fora escondido ali para evitar sua morte pelos soldados do faraó. Miriam, esperta, vê que o cesto é recolhido pela filha do faraó. Então, logo se apresenta oferecendo-se para ir buscar uma hebréia para cuidar do menino e chama a mãe (Ex 4, 1 - 10). Graças a esta mulher, que viveu toda sua vida em prol de sua família e seu povo temos hoje essa história cheia de conflitos, mas também de amor, companheirismo e solidariedade, verdadeiras lições de vida. Assim é a história de miriam e de seu povo.
 Mas é bom também lembrar-mos que no Antigo Testamento encontramos histórias de outras personagens femininas como Sara, Rebeca, Lia e Raquel, as chamadas matriarcas, mulheres que estiveram sempre em posição de liderança na formação da consciência do povo hebreu. A essas mulheres podemos incluir Débora, Ana, Rute, Judite, Ester, entre outras, que foram capazes de impulsionar com sabedoria e ao mesmo tempo com autoridade as forças de resistência do povo, mas que nas interpretações machistas dos textos estiveram sempre em segundo plano. Assim foi, também, Miriam. Mulher forte e de carater que ainda criança se ocupou dos problemas de injustiças que seu povo sofria em terras do Egito. Cheia de esperanças e confiança em Deus, juntou-se a seus irmãos Moisés e Arão na condução da grande marcha do povo hebreu para a libertação da escravidão no Egito (Mq 6, 4), rumo a Terra Prometida.
Miriam possuía muitos dons, como o da poesia e da música (Ex 15, 20 - 21), sendo assim, teve fundamental participação durante o êxodo[7] na organização do povo nos momentos de confraternização tocando, cantando e dançando. Não media esforços para ajudar a solucionar problemas, fossem eles dos mais simples aos mais complexos. Por isso, no reconhecimento do povo, sua liderança estava apenas abaixo de Moisés e de Arão, apesar da predominante cultura patriarcal, pois Deus era mais pronunciado como o Deus dos pais, Abraão, Isaac e Jacó, que o Deus de Sara, Rebeca, Lia e Raquel. Desde essa época, como podemos verificar, a mulher vem sendo excluída sistematicamente de todas as decisões do poder, seja ele político ou religioso.
A grande concentração masculina e patriarcal nos textos bíblicos, tanto do Antigo como no Novo Testamento, ofusca a imagem das mulheres que aparecem politicamente ativas cumprindo papel verdadeiramente revolucionário. Infelizmente em uma organização social machista o que enraizou no imaginário coletivo, de forma devastadora, são os relatos antifeministas. Cito alguns exemplos, a criação do homem e da mulher (Gn 1, 26 - 28), aqui a anterioridade de Adão é interpretada como superioridade masculina. A origem do mal (Gn 3, 6- 7), o texto quer mostrar que o mal está do lado da humanidade e não do lado de Deus. Mas a interpretação dada é que a mulher como sexo fraco, por isso ela foi seduzida e seduziu o homem. Está escrito nesse capítulo a razão da submissão histórica e ideologicamente justificado, “... a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará” (Gn 3, 16). Dentro da cultura patriarcal, Eva (mulher) é a grande sedutora e fonte do mal.
Miriam era uma líder e uma profetiza devotada a seus irmãos e a seu povo. Como qualquer outro ser humano também tinha virtudes e fraquezas. Cuidou de Moisés e manteve-se sempre a seu lado, fosse nos momentos de festas ou nos momentos mais difíceis de tomadas de decisões a respeito da vida do povo, a conexão entre ambos era muito forte, pois ela havia moldado sua vida. Miriam fica doente é acometida pela “lepra” e Moisés, seu irmão, intercede por ela pedindo a Deus que a cure. Durante esse período, Miriam é deixada fora do acampamento, o povo em consideração e respeito e lealdade a sua líder não partiu até ela voltasse (Nm 12, 15). Miriam, enquanto ser humano viveu todos os conflitos comuns a uma mulher e uma pessoa que interage de forma política na sociedade. Teve erros e acertos, mas podemos concluir que ela foi uma mulher poderosamente usada por Deus.
Mesmo nos momentos mais difíceis, Miriam não perdeu as esperanças de que um dia Moisés libertaria o povo hebreu da escravidão. Quando Miriam morre (Nm 20,1), Moisés se sente perdido e incapaz de suportar as lamúrias do povo. Então, comete o erro que o deixa fora da Terra Prometida. Moisés precisava de Miriam, assim como Miriam precisava de Moisés, ambos consolidavam o equilíbrio necessário na condução do povo. Então, fica claro que somos todos, homens e mulheres, na verdade complemento uns dos outros.
Mas assim como Miriam, que com sabedoria soube romper com preconceitos machistas, impostos à mulher de sua época, mostrando sua capacidade de liderar, precisamos nós, romper com o antifeminismo, centrado sobre a dominação masculina, o pecado e a morte[8]. Nesse sentido, devemos propor alternativas originais e positivas que favoreça uma nova relação com a vida, o poder, o sagrado e a identidade de gênero[9]. Resgatar o matriarcado e fazer uma releitura do mesmo na perspectiva de mudança de paradigma nas relações masculino/feminino pode possibilitar um ponto de equilíbrio maior entre tais valores para os dias atuais. Para tanto, devemos desconstruir o que destrói a harmonia masculino/feminino e construir novas práticas civilizatórias e humanizadoras para ambos os gêneros.

Rio de Janeiro, 15 de Julho de 2016.




[1] Todas as citações bíblicas são da Bíblia Edição Pastoral das Edições Paulinas, SP - 1990.

[2] O termo hebreu indica a condição social de estar a margem, ou seja, marginalizado. Pois significa "gente do outro lado do rio”, isto é, do rio Eufrates. Os hebreus são povos semitas originários da Mesopotâmia que passou pela Babilônia e pela Síria, mas se estabeleceram e viveram no Oriente Médio cerca do segundo milênio a.C. e que mais tarde originou os semitas como os judeus e os árabes, mas posteriormente o termo hebreu foi associado somente ao povo judeu.

[3] Antigo Testamento ou Velho Testamento é a primeira parte da Bíblia. O mesmo é constituído por 46 livros, na versão usada pelos católicos, e por 39 livros, na versão usada pelos protestantes.

[4] Pentateuco é uma palavra grega “pentateuchos”, que significa “cinco volumes” que é usada para designar os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. O Pentateuco é chamado pelos judeus de livros da “Lei” ou Torá.

[5] Clãs é um grupo de pessoas unidas devido a um determinado grau de parentesco, definido pela descendência de um ancestral comum.

[6] Ildo Bohn Gass (Org). Uma introdução à Bíblia: Formação do Povo de Israel. Vol 2. 2ª ed – 2011.
[7] Êxodo é o nome dado para a saída de um grupo de pessoas de uma região para outra. Nesse sentido, o segundo livro da Bíblia, denominado Êxodo, conta a história sobre a fuga dos hebreus da escravidão que sofriam no Egito, entre 1300 e 1250 a.C. O protagonista das narrações é Moisés, que teria liderado o povo hebreu de volta à Canaã, a “Terra Prometida”.

[8] Boff, Leonardo. A porção feminina de Jesus. Disponível em: www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/MA/article. visitado em: 11/7/2016.

[9] Na sociedade, identidade de gênero se refere ao gênero em que a pessoa se identifica,  como sendo um homem, uma mulher ou se ela vê a si como fora do convencional, mas pode também ser usado para referir-se ao gênero que certa pessoa atribui ao indivíduo tendo como base o que tal pessoa reconhece como indicações de papel social de gênero (roupas, corte de cabelo, etc...).





[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta. Membro do CEBI-RJ/Sub-regional Campo Grande.



domingo, 3 de julho de 2016

Por quem os sinos dobram - Gleides- Cebi Nova Iguaçu


                                              Por quem os sinos dobram


     Na plaquinha colocada na porta da capela mortuária consta o nome de uma mulher. Os transeuntes da pequena cidade param para ler o nome. Em alguns casos é colocado, também, o retrato da pessoa cujo corpo está sendo velado.
     
     Era jovem ou idosa? Morreu por quê? 

     Os sinos não dobram mais, no entanto, sabemos que nesse exato momento um ser humano está perdendo sua vida.

   Os meios de comunicação nos deixarão informados sobre os idosos sem atendimento médico; mulheres e meninas vítimas da violência; corpos de refugiados cobrindo as areias do litoral mediterrâneo; jovens e crianças executadas; indígenas e camponeses massacrados pela concentração de terra; trabalhadores e trabalhadoras soterrados pelo descaso e exploração... e sobre aqueles e aquelas que tiraram a própria vida levados por tantos motivos que não ouso nomeá-los. 

     Entre esses está o escritor Ernest Hemingway, brilhante autor de tantas histórias e personagens que carregavam dentro de si todo o universo de sentimentos que abriga o coração humano e que, há cinquenta e cinco anos (02/07/1961), usou um rifle para deixar esse mundo que tanto o encantava como também o angustiava.

     "Por quem os sinos dobram", intitulou ele uma de suas obras mais conhecidas.

     Dobram por todos que ele representa e pelas mulheres, crianças, jovens, velhos, indígenas..., e por mim, por você, por nós.

     Porque
" Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do
continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar,
a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me porque sou parte do gênero humano. E por isso
não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".
                                                                                                 John Donne, 1624.



                                                                                    Gleides Ribeiro - Cebi Nova Iguaçu

sábado, 11 de junho de 2016

Páscoa hebraica: libertação permanente em Jesus Cristo. Biro - CEBI Volta Redonda(RJ)

Páscoa hebraica: libertação permanente em Jesus Cristo

O povo de Deus no deserto andava, Mas à sua frente Alguém caminhava.
O povo de Deus era rico de nada, Só tinha a esperança e o pó da estrada.
Padre Zezinho
Compositor: Paulo Cesar

A origem da palavra Páscoa vem do hebraico pesah.Êxodo cap.12 versículos 13 e 27, temos a raíz hebraica pshque dá sentidos aos verbos: saltar, passar por cima, pouparÊxodo é qualificado com o Evangelho do Antigo do Testamento, por que narra à saída, fuga e libertação,dos empobrecidos. A Páscoa hebraica é carrega de simbolismo e imagens fortes. A épica novela bíblicamarcada pela luta entre o Faraó do Egito e Javé libertador,é memória do povo de Deus. O Faraó: ordena matar todos os primogênitos hebreus [1] (Êx 1,15-22). O primogênito,primeiro de uma linhagem (menino) de uma família hebreiaO primogênito simboliza o coletivo do povohebreu que estava sendo escravizado, razão pelo qual Javéaplacou a sua fúria sobre à casa do Faraó, exterminando seus primogênitos. Sob a orientação de Javé, hebreus sacrificaram um carneiro [2]E com sangue do carneiro,os hebreus pintaram os umbrais de suas portas, assim que anjo da morte [3] passou ferindo o Egito e saltando a casa dos hebreus (Êx 12,23. 27). Páscoa hebraica consiste, na desobediência e rebeldia contra o Faraó e fidelidade e confiança as palavras de Javé libertador. Páscoa é credo de fé hebreu. Reconhecer Javé Deus libertador. Fazer memória dessa libertação. Saindo da escravidão para libertação.
Novo Testamento a Páscoa Cristã tem seu ponto encontrona Paixão do Senhor Jesus, que se divide em três etapas de três horas cada. São as chamadas horas das graças, as quais se realizam a salvação da humanidade. Temos a hora terça em latim à hora tércia – às 9 horas. É o tempo do despojamento de Jesus (Mc 15,24-32). Ele é exposto nu aos olhos do mundo. Os insultos, as zombarias significam o fracasso humano total. Jesus toma para si a experiência de Adão e de seus filhos, colocando-se em sinal de maldição. Temos a hora sexta, é meio dia – 12 horas. É o tempo das trevas (Lc 23,44), na linguajem simbólica, as trevas representam o caos total e original, que vai dando passagem ao pré – natal, antecipando a nova criação. A hora nona, em latim a hora noá, ou seja, às 15 horas. É o tempo da morte de Jesus (Mt 27,46-54). A morte de Jesus é acompanhada de sinais que expressam o renascimento de um novo mundo. Seu grito forte, o véu do templo que se rasga abaixo e as primeiras profissões de fé, simbolizavam a esperança da Páscoa que os Hebreus alimentavam, foram confirmados na pessoa de Jesus Cristo, a nossa Páscoa (Lc 22,15-16). Páscoa hebraica é libertação permanente em Jesus Cristo.





NOTAS REFERÊNCIAIS 

[1] TEB em Êx 1,15-22 nota G: Hebreu /hapiru/apiru: é um grupo de pessoas escravas/ exploradas/excluídas, se rebelaram e se reorganizaram, formando grupos armados, mercenários contra o sistema monárquico. É um grupo de resistência.
[2] Teologia Epcia era considerada divindade de nome Khnum, considerado um dos criadores do universo, divindade solar e associado ao Deus-Sol Rá formando a divindade Khnum-Ra. <http://www.fascinioegito.sh06.com/carneiro.htm> acessado em 10 jun. 16.
[3TEB em Êx 12,23 nota P: Poderíamos traduzir: a destruição. No entanto, as versões antigas personificaram esse Destruidor.  Gn 19,13 e 2°Sm 24,16  “anjos’encarregados de uma missão semelhante.


Valdeci de Oliveira Biro
Pós-Graduado em Especialização Bíblica na área de Assessoria e Metodologia 
Pelo CEBI e Faculdade EST: Escola Superior de Teologia
Luterana de São Leopoldo-RS.
Membro da ABIB: Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica do Brasil-SP.
valdeci.biblista@outlook.com
valdeci.cebi.biblista@gmail.com

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A corda... João Crispim Victorio - CEBI-RJ/Sub-regional Campo Grande.

A corda...

João Crispim Victorio[1]


Atenção
Homens e mulheres
Heterossexuais, homossexuais, bissexuais...
Pobres, ricos, intermediários...

Atenção
Católicos, Espíritas, Protestantes...
Negros, amarelos, brancos...
Velhos, jovens e crianças...

Acordem
Saiam da frente da televisão
Desliguem o ópio globo...
A corda está no pescoço
O algoz quer dá o golpe final...

Acordem
Libertem-se da letargia
Levantem a cabeça, ergam o corpo...
O Reino está mais distante
O diabo rasgou a Constituição, o Evangelho...

Atenção
Acordem todos
Venham para ruas
A luta continua...


Rio, 20 de maio de 2016.




[1] Professor, Especialista em Educação, Poeta e Membro do CEBI-RJ/Sub-regional Campo Grande.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Profetismo e a Fé Cristã - Valdeci de Oliveira Biro - CEBI-RJ /Sub-regional Volta Redonda

Profetismo e a Fé Cristã
O Povo de Deus, desde a era Abraâmica até os dias atuais, sempre viveu desafios decorrentes de tendências que visam distorcer a verdade e implantar o contraditório, em face ao apelo de Deus. Exemplo claro de distorção e contraditório na bíblia, é quando querem transformar Arca da Aliança[1], num Bezerro de Ouro[2]. E com isso, reinterpretam o Projeto de Deus, segundo as suas conveniências, criando a sua própria imagem e semelhança, segundo o seu credo de fé: o poder de sua riqueza, a segurança enganadora, o autoritarismo; a falsa sensação de atmosfera de ordem e paz, e o desequilíbrio da fé desmoronada.
Em nome de Bezerros de Ouro, terminam por assumir a causa dos poderosos. A politicagem palaciana consegue fazer que a verdadeira religiosidade tenha medo. Consegue aglutinar somas de grupos com pensamentos diferentes (os piores possíveis) em pensamento único e faz acontecer o grande milagre: fazê-los perdoar os seus inimigos de 70 a 7 vezes, desde que essa conta se converta em dinheiro e seja transferida para o saldo bancário dos perdoadores e dos perdoados. Isso é devassidão (Jr 5,30-31). Isso é o flagrante do contraditório que visa distorcer a causa de Deus, que é voltada para os pobres e maiorias oprimidas, que é a própria causa de Deus.
Papa Francisco afirma: “a corrupção é pior que o pecado. A corrupção é o mal da nossa época, que se alimenta de aparência e aceitação social. Por isso, a corrupção precisa ser curada. Na verdade, a corrupção é "não um ato, mas um estado, um estado pessoal e social no qual a pessoa se acostuma a viver", por meio de hábitos que vão deteriorando e limitando a capacidade de amar[3]”.
A corrente profética, interpreta o Projeto de Deus a partir de sua voz, ouve os gemidos e os anseios da realidade humana, na realidade histórica, sensibilizam pela realidade, pelos gritos de justiça, de participação e por liberdade. Com isso assume a causa dos excluídos que é a causa de Deus. São eles que mantém a memória de Deus viva no meio do povo lascado, dão testemunho e mantém viva aspiração por liberdade, muitas vezes pagando com a vida ao preço da perseguição da morte. Vejam os profetas que foram perseguidos: Dom Waldyr Calheiros, Dom Helder Câmara, Dom Fragoso, Pe Ibiapina (Paraíba), Antônio Conselheiro, Pe Cicero Romão Batista (Ceará).
No coletivo da fé cristã, todos são chamados por Jesus, todos são consagrados nesta corrente profética, seja, cristão ou não cristão, independente de credo, etnia, gênero. O Profeta é a expressão de fidelidade ao Projeto de Deus da vida e da liberdade. Todos se encontram imersos no mistério Pascal de Jesus Cristo. As características do profetismo de Jesus: promoção da vida e da liberdade em aliança com os pobres e excluídos. Leiam Evangelho de Marcos 1,4 – 3,6.
Na atualidade existem comunidades e movimentos proféticos, hoje esse fato se manifesta em forma apocalíptica com indicação de sinais dos tempos. O grito de Moisés se torna presente hoje: “Oxalá[4] todo o povo de Javé fosse profeta e recebesse o espírito de Javé! (Nm 11,29) ”. Fenômeno das Comunidades Eclesiais de Base e outros movimentos proféticos, que nascem do meio popular, em cuja a organização popular em atividades com os pobres e excluídos, fazem a participação consciente nas decisões que lhe diz a respeito. É início da realização da profecia de Joel, citada por Pedro: “'Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre toda a criatura. Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar; os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos. (Atos 2,17). ”  É este aspecto comunitário que a profecia de Atos dos Apóstolos fala-nos sobre a profecia popular.


Referência
[1] Js 24,1: termo presença de Deus, é a própria Arca da Aliança.
[2] Êxodo 32,8:  A imagem do bezerro ou touro novo simboliza a força e fertilidade, foi banido do culto de Israel por causa de suas ligações com os Deuses e Deusas naturistas cananeus.
[3] http://www.catequisar.com.br/texto/materia/fe2/0628.htm < acessado 02 de maio 2016>
[4] Deus tomara quem dera, se for da vontade de Deus, Tomará Deus tomará, ...

Valdeci de Oliveira Biro
Pós-Graduado em Especialização Bíblica na área de Assessoria e Metodologia
 Pelo CEBI e Faculdade EST: Escola Superior de Teologia
Luterana de São Leopoldo-RS.
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segunda-feira, 18 de abril de 2016

PROFETA OSÉIAS - Valdeci de Oliveira Biro - Cebi-RJ /Sub-regional Volta Redonda

 PROFETA OSÉIAS

 “ Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício;
e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos”(Os 6,6).

O livro de Oséias é o primeiro da coleção dos doze profetas na sequência dos livros hebraicos e na versão grega dos “Setenta” (Septuaginta).  Significado de seu nome: Hoshea ou Oséias (“ele salva“) é o nome primitivo que Moisés troca por Josué (lehoshua, "é o Senhor que salva"), cf. Nm 13,16. Sobre a troca de nomes na Bíblia. cf. G n 3,28. Oséias é um dos profetas posterior ao profeta Amós. Oséias viveu no reino do Norte, “de Israel” (chama Jacó, 12,3; e, Efraim, 4,17), por volta de 750-725a.C.
O primeiro versículo do livro menciona um só rei de Israel: Jeroboão, filho de Joás. Esse Jeroboão II, teve longo e próspero reinado, mas foi o penúltimo rei da dinastia de Jeú, cuja próxima extinção do poder Assírio, que Oséias anunciou em 1,4 (em 2Rs 14,23-17,23 encontramos notícias dos reinados durante os quais se exerceu a atividade de Oséias).
 O capítulo sete, traz alusões ao conturbado período que se seguiu ao reinado de Jeroboão II: revoluções palacianas. Indicações cronológicas inseridas no início do livro são posteriores ao desastroso fim do reino do Norte; não há indício seguro de que Oséias tenha sabido da queda de Samaria; é provável que tais indicações sejam devidas a um redator de Judá, que as acrescentou no momento em que as palavras de Oséias foram recolhidas num único livro.
Contexto histórico, oráculos do livro de Isaías, contemporâneo de Oséias; todavia Judá sobreviveu mais de um século a seu irmão inimigo do Norte. O livro de Oséias mostra-nos Efraim - Israel em constante oscilação entre as duas potências (7,11), fazendo um jogo trágico resultado não escapa ao olhar lúcido do profeta: a queda sob o avanço arrasador dos assírios, com a repressão, a deportação das elites, política mediante a qual os conquistadores queriam garantir a sujeição definitiva das terras ocupadas (8,8); e a fuga ao Egito, para os que conseguissem escapar (9,6).
Contexto religioso e moral, denunciou em Israel, corrupção moral profunda (4,1-2: 6.7-10; 7,1), injustiça social, culpa das elites, infidelidade religiosa, raiz de todas as outras formas de corrupção e a causa de todas as desgraças. A sedução do sincretismo, perigoso, visto que israelitas queriam conciliar favores dos Deuses (as) de Canaã, tomando todas as cautelas para sobreviver bem, sem abandonar o Deus dos pais e mães. Este sincretismo religioso devia ser facilitado pelo fato de que, para alguns israelitas, não era senão o retomo a antigos costumes até certo ponto abandonado por ocasião da aliança de Siquém (Js 24).
O casamento do profeta, livro de Oséias, uma experiência que esclareceu ao ser humano o que pode ser o coração de Deus. Amando Gomer sua esposa (1,2ss), Oséias compreendeu e soube exprimir o amor do Senhor para com seu povo tal como era. É por isso que no livro de Oseias o amor dominante sobre a indignação e a cólera; todavia não se trata de amor hipócrita e ignorante, e sim de amor amadurecido pelo sofrimento, cuja exigência não reconhece o fracasso.
Somente entende-se o que é profeta a partir da sua experiência pessoal, promovida numa aliança da causa de Deus com a causa dos necessitados. Deus contemplado e experimentado é o Deus da história salvífica.  Para os profetas é uma coisa só pensar em Deus e pensar na causa dos pobres. No profetismo, experimentar Deus é abraçar a causa dos excluídos. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5,14; Mc 12,28-34).

Valdeci de Oliveira Biro
Pós-Graduado em Especialização Bíblica na área de Assessoria e Metodologia
 Pelo CEBI e Faculdade EST: Escola Superior de Teologia
Luterana de São Leopoldo-RS.
Membro da ABIB: Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica do Brasil-SP.