segunda-feira, 15 de maio de 2017

Quem é meu companheiro?

Companheirismo, quem é meu companheiro?
João Crispim Victorio[i]
Recentemente fui chamado de companheiro por uma pessoa que julgo não saber o significado da palavra. Pois tenho observado que muitos vêm, ao longo dos últimos anos, utilizando o termo pura e simplesmente por modismo ou de forma incoerente com o seu verdadeiro sentido e significado. Dessa forma, podemos dizer que o termo companheiro vem sendo usado de modo genérico para identificar pessoas como pertencentes a um determinado grupo organizado, que pode ser partidário, sindical, religioso, cultural ou esportivo, independentemente da superficialidade ou do comprometimento de cada um no grupo.
A etimologia da palavra companheiro[1] deriva da tradução do latim vulgar (‘cum’ + ‘panis’), na antiga Gália - atual França, de uma expressão germânica, "gahlaiba", composta de “ga” («com») + “hlaiba” («pão») – cf. Dicionário Houaiss, e do antigo castelhano compañero. Segundo, Antenor de Veras Nascentes[2]o signficado no latim vulgar compania `conjunto de pessoas que comem seu pão juntamente´ ter-se-ia generalizado para `pessoas que vão juntas´ e, depois, se especializado, como termo militar e para fazer referência à `tripulação de uma embarcação´”.
Como podemos ver a palavra companheiro que se referia a quem se comia junto o pão, foi perdendo seu significado. Hoje o sentido da palavra companheiro se confunde com o da palavra colega, conforme definição do Dicionário Aurélio[3] “1 aquele ou aquilo que acompanha ou que faz companhia. 2 - O que vive na mesma casa. 3 - Pessoa que partilha com outra(s) a profissão, as mesmas funções, a mesma coletividade. 4 - Pessoa que tem com outra ou outras uma relação de amizade ou camaradagem. 5 - Membro de um casal, relativamente ao outro. 6 - Segundo grau da ordem. 7 - Forma de tratamento amigável. 8 - Que acompanha ou faz companhia. 9 - Que anda junto. 10 - Que está sempre ligado a outro”.
Na origem, companheiro é alguém muito próximo que senta à mesa conosco para partilhar o pouco pão e compartilhar a luta por uma vida melhor. Assim nasceram as primeiras organizações operárias - os sindicatos[4]. A solidariedade entre os operários e suas famílias foi de fundamental importância na conquista de melhores salários, melhores condições de trabalho e fortalecimento de classe. Desse modo, companheirismo é um processo coletivo de construção ideológico no intuito de abraçar o ideal da transformação social “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância[5]”, que significa ter casa, escola, trabalho, saúde e pão para comer, pão que historicamente é símbolo de acolhida e de solidarismo[6].
Mas, infelizmente, alguns dos que se dizem companheiros, principalmente os que atuam com você nos sindicatos e nos partidos políticos, os que deveriam ter um mínimo de ideologia e saber que vivemos uma luta de classes, justamente esses agem sem nenhum escrúpulo e usam os outros companheiros para atingir seus objetivos escusos. Isso mos mostra a triste realidade da atual sociedade que vivemos. Então, é preciso recuperar os valores éticos, morais e solidários, que vêm sendo aos poucos ignorados e banalizados pelo poder opressor, desse sistema político capitalista que valoriza o individualismo, a vaidade e o consumismo em detrimento do companheirismo e da vida em plenitude.


Rio de Janeiro, 11 de maio de 2017.



[1] Disponível em: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-etimologia-de-companheiro/33460. Acesso em: 11 de Maio de 2017.

[2] Antenor de Veras Nascentes (6/1886 – 9/1972) filólogo, etimólogo, dialectólogo, e lexicógrafo brasileiro de grande importância para o estudo da lingua portuguesa. É considerado um dos mais importantes estudiosos da Língua Portuguesa do Brasil no século XX. Ocupou, como fundador, a Cadeira nº 3 da Academia Brasileira de Filologia.

[3] Disponível em: ‹https://dicionariodoaurelio.com/companheiro›. Acesso em: 11 de Maio de 2017.

[4] Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/Origem-da-palavra-companheiro. Acesso em: 11 de Maio de 2017.

[5]  Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/acf/jo/10/10. Acesso em: 11 de Maio de 2017.

[6] Termo criado pelo autor.




[i] Professor, Especialista em Educação, Poeta e Secretário do CEBI-RJ.

Eu vi a coragem do Povo e a repressão praticada por aqueles que deveriam cuidar da “ordem”.

           Na  última sexta, dia 28 de abril, data escolhida para a greve geral e atos contra as reformas trabalhista e previdenciária que o governo quer nos impor. Precisávamos (eu e Milena, uma de minhas filhas), como de costume, estar junto às ansiedades e caminhada do povo e a este evento marcante para os novos rumos da história brasileira.
De início fomos à Cinelândia, onde concentravam-se centrais sindicais e várias categorias sindicais, entre elas:  saúde, petroleira, educação, químicos etc. Encontrava-se também a postos um cordão  da tropa de choque da PMRJ, prontamente equipada com escudos, bombas e cassetetes, na entrada principal do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a fim de inibir o acesso dos manifestantes às escadarias deste. Observamos toda a  movimentação  e dali  partimos  em direção à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro  (ALERJ), um dos principais pontos de encontro da atual luta popular. Onde também já encontrava-se a postos, no alto das escadarias, mais um cordão da PMRJ.
               Lá já estava concentrada uma multidão, e partimos em direção à igreja da Candelária. Logo fomos surpreendidos pelo estouro de bombas e gás lacrimogênio (gás de pimenta) que partiam da parte posterior à multidão. Os manifestantes mais próximos e atingidos pelo gás comprimiam-se em meio à multidão e a cortina de fumaça na tentativa de alcançar a primeira esquina  para se proteger.  Dentre a multidão, havia famílias com crianças, idosos e idosas, universitários, jornalistas e centenas de trabalhadores e trabalhadoras. 
Recuperadas dos efeitos dos gases, juntamente com outras pessoas, retornamos à multidão. Chegamos  à Igreja da Candelária, e numa mureta, filmamos parte da multidão, quando visualizamos os “mascarados” adentrando na avenida, com arruaças e quebra-quebra, migrando para o lado direito da mesma Avenida, destruindo  vidraças de uma agência bancária, ao passo que a multidão seguia sua trajetória com palavras de ordem atrás do carro de som, pelo lado esquerdo desta mesma Avenida. Ao cruzar a lateral da igreja da Candelária, havia um novo cordão da PMRJ na espera, que observavam de longe a ação dos mascarados. Helicópteros apareceram sobrevoando a região.  Adiante, havia inesperadamente mais um cordão da PMRJ que logo avançou em direção à multidão novamente com bombas de gás e também com tiros de borracha. Iniciou-se então novo enfrentamento e correria.
O intrigante deste momento, foi que mesmo o grupo de mascarados efetuando suas ações do lado direito da Avenida Pres. Vargas, toda a investida policial, concentrou-se do lado esquerdo, onde passavam os manifestantes pacificamente.
               Houve muita correria e dispersão dos manifestantes e em meio  ao corre-corre e ação do gás, pessoas passaram mal. Correndo, entramos na Rua Uruguaiana, abrigando-nos em uma lanchonete, a qual estava fechando as portas devido à cortina de fumaça. Permanecemos lá por mais ou menos 30 minutos,  junto a um grupo de universitários vindos da cidade de Rio das Ostras. Nesta  lanchonete, assistimos algumas transmissões ao vivo de uma “grande emissora de televisão brasileira”, que divulgava imagens distorcidas sobre o fato ocorrido.
             É nítida a inversão de valores, a insistência na apresentação de imagens que são favoráveis ao que eles querem que acreditemos. São  mentiras descaradas.
             Logo seguimos em direção para o Largo da Carioca, onde tinham novos cercos policiais restringindo as passagens de acesso à Cinelândia e nitidamente ouviam-se estouros de bombas vindos de lá. Contornamos pela Av. Chile, na esperança de chegarmos e continuarmos a manifestação. 




Na Rua das Marrecas,  muitos grupos dispersos, que vinham retornando da Cinelândia devido à violência instaurada pela PMRJ, e insistentemente helicópteros sobrevoavam em baixa altura ruidosamente.
Recomeçam os tiros cada vez mais próximos e decidimos retornar para casa.   Observamos ainda, mais policiais saindo do Quartel General com seus blindados da Rua Evaristo da Veiga indo em direção à Cinelândia.
No caminho de volta para casa, vínhamos refletindo sobre a coragem do povo, abafada pela covardia e repressão dos Poderes do Estado. Mesmo tristes, cada cidadã e cidadão tinham exercido seu direito de ir às ruas em busca de melhores dias e  a certeza de que a multidão  que cumpriu seu papel e que foi violentada, se recuperará e retomará o que é seu por direito.

                                                         Janete J. Martins
                                                         CEBI RJ


terça-feira, 8 de novembro de 2016

"A Esperança é a última que morre." Fernando Henriques coordenador/CEBI Méier


CEBI MÉIER
Comunidade Renato Cadore

Mês da Bíblia:A Esperança é a última que morre.

Fernando Henriquescoordenador


Praticar o direito, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o teu Deus” (Mq 6,8).

    No mês da Bíblia do ano de 2016, setembro, o livro bíblico a ser estudado e meditado é o do profeta Miqueias. O tema é “A Profecia em defesa da vida”. O lema é uma frase do próprio livro de Miqueias, cap.6 v-8 (O Profeta Miqueias – a esperança é a última que morre, Carlos Mesters e Francisco Orofino, edição CEBI, PNV 335, São Leopoldo, 2015).
    Miqueias falava ao povo de Deus. Quem era esse povo de Deus? Num mundo dividido entre exploradores e explorados, Miqueias não tinha nenhuma dúvida: o povo de Deus eram os pobres, aqueles que tinham que entregar suas capas de frio como garantia (cf Ex 22, 25-26 e Dt 24, 10-13).
   Povo de Deus eram as mulheres e crianças tiradas de suas casas e vendidas para pagar as dívidas da família. O empobrecimento das pessoas estava crescendo assustadoramente. A escravidão tinha chegado à região por causa das dívidas.
   Povo de Deus eram os pequenos proprietários com sua agricultura de subsistência que eram roubados de suas terras e casas. A ganância do latifúndio levava ao empobrecimento de uma vasta população.
   O profeta vai se lembrar de Belém, um lugarzinho insignificante do interior, embora perto da capital Jerusalém. “E tu, Belém, pequena demais para ser contada entre as aldeias da tribo de Judá. É de ti que vai sair aquele que deve governar Israel. A origem dele vem de um passado distante. Ele se colocará de pé e guiará o seu rebanho com a força do Senhor. Ele mesmo será a paz! (Miquéias 5, 1-4).
    O profeta da roça acredita que dos pobres do interior virá um verdadeiro líder popular que trará a paz para o povo. Muito a norte dali, nas serranias da Galileia, há uma aldeia ainda mais insignificante, de seu nome Nazaré.
     Miquéias imagina que o novo Messias virá de Belém, assim como Davi. Miqueias tinha certeza de que os pobres seriam a única garantia de um futuro melhor. Nenhum futuro bom se poderia esperar dos palácios, dos bairros ricos das cidades, de qualquer rei poderoso. O futuro deveria vir da periferia.
     O livro de Miqueias oferece uma espiritualidade que possibilita o despojamento necessário para superar o consumismo e o individualismo da cultura do mercado global. Ele apresenta uma visão de Deus presente na sua criação, caminhando com seu povo em busca de “terra, pão e moradia” (Profecia em defesa da vida – círculos bíblicos sobre o Livro de Miqueias, Mercedes Lopes, edição CEBI, PNV 339, São Leopoldo, 2016).

     O CEBI Méier, continua seu especial carisma do estudo da Bíblia e da Vida, nossos encontros são aos sábados das 9h às 12h, na Casa Pe. Dehon (Rua Vilela Tavares, 154, Méier). Não há necessidade de inscrição prévia. Basta levar a sua Bíblia.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

As Crianças E Os Velhos Nas Praças Serão Um Sinal Dessa Nova Aliança. - Valdeci de Oliveira Biro - Cebi Volta Redonda (RJ)

As Crianças E Os Velhos Nas Praças Serão Um Sinal Dessa Nova Aliança.

Livro do Profeta Zacarias 8,4-5: “Velhos e velhas ainda se sentarão nas praças de Jerusalém, todos de bengala na mão por causa da idade. Mas logo as praças da cidade ficarão cheias de meninos e meninas a brincar pelas ruas”. Citação retirada da Bíblia Pastoral, Paulus, 1990.
 O Livro de Zacarias reúne oráculos[1]do profeta que tematizam a promessa de salvação. E uma profecia escrita no exílio da Babilônia (520 a.C.), em terra estranha para os Israelitas. O profeta anima o povo a retornar do exílio e reconstruir a cidade e o templo de Jerusalém.
Neste contexto ele anuncia um tempo de esperança, que as praças da cidade se encherão de meninos e meninas, que nelas brincarão (Zc 8,5).
Javé convida seu povo para fazer com ele uma nova aliança fundada na verdade e na justiça, a força capaz de trazer a paz e a alegria. As crianças e os velhos nas praças serão um sinal dessa aliança. Crianças brincando na praça é um sinal claro de que há segurança. Jerusalém é a cidade ideal: sem muros, e uma nova população. Velhos com idade avançada, crianças brincando é uma perspectiva de uma população em crescimento, um bom sinal diante da dispersão judaica (espalhamento dos judeus pelo mundo) após o exílio da Babilônia.

*Valdeci de Oliveira Biro
Coordenador do CEBI-SUL FLUMINENSE-VOLTA REDONDA
Pós-Graduado em Especialização Bíblica na
Área de Assessoria e Metodologia
 Pelo CEBI e Faculdade EST: Escola Superior de Teologia Luterana
Membro da ABIB: Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica





[1]  Uma coletânea de discursos de julgamento contra os dominadores que prejudicam os mais pobres e indefesos: órfão, a viúva e o estrangeiro. Javé fala através da boca dos profetas. Através das palavras dos profetas exprime sentimentos de castigo ou a ira e anunciam também a esperança consoladora. É a própria fala ou declaração de Javé: "assim disse Javé", ou de fórmula acentuada: “Ouvi esta palavra!" Eu [Javé] não o revogarei...

domingo, 11 de setembro de 2016

GÊNESIS: A CRIAÇÃO NASCE DAS ÁGUAS. Valdeci de Oliveira Biro - CEBI Volta Redonda (RJ)

GÊNESIS: A CRIAÇÃO NASCE DAS ÁGUAS.

Os cidadãos da província que voltaram do cativeiro e do Exílio, aqueles que Nabucodonosor, rei de Babilônia, deportara para Babilônia; voltaram para Jerusalém e para Judá, cada um para a sua cidade. O rei Ciro da Pérsia conquistou Babilônia (Dn1,21) em 539 da AEC (Antes da Era Comum, em respeito fé Judaica). Esse é o ponto histórico.
A comunidade Israelita começa a contemplar Deus como fonte criadora, capaz de renovar seu povo através da nova aliança, foi no cativeiro da Babilônia que surge o relato do Gênesis: a criação nasce das águas. Nasce uma das primeiras tradições bíblicas: a origem do mundo criado por Deus (Gn 1-2,4). No princípio, havia as águas do abismo, de onde nenhuma vida surgia.  Deus separa as águas do céu e as do abismo. Deus venceu o caos, para que o ser humano pudesse existir em terra firme sem medo do dilúvio.
 O principal ato da criação de Deus é o ruah: o seu Espírito criador. Toda criação e a história vivida pelo povo Israelita estão em profunda comunhão com Deus. É sinal da presença de Deus. Deus é amor e favorece tudo o que vive (Gn 9,9). O ruah de Deus aparece como água que sacia a sede e purifica quem bebe, o livro dos Salmos está repleto desse simbolismo.
Hoje temos, o contraditório, ação dominadora do sistema capitalista de olho nas matrizes energéticas em todo mundo.
Valdeci de Oliveira Biro. Biblista.
valdeci.biblista@outlook.com


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Artigo de Miqueias do mês da Bíblia(ICAR) 2016. Profeta Miqueias: seu povo, sua terra e sua proposta. Valdeci de Oliveira Biro - CEBI Volta Redonda(RJ)

Profeta Miqueias: seu povo, sua terra e sua proposta.  
Deus pode preencher com o seu amor os nossos corações,
  e permitir que caminhemos juntos em direção à Terra da liberdade e da vida”. 
Papa Francisco ‏@Pontifex_pt  24 de maio 2016 

Miqueias nasceu em Morasti (1,1), é a mesma Morasti-Gat, um arraialzinho do Reino de Judá, próxima da cidade Jerusalém uns 35 quilômetros. Fato importante, que esses dados nos situam num ambiente de interior, ou seja, da roça, o mundo do campesinato, em contato direto com problemas dos pequenos agricultores familiares, vitimas dos grandes donos de terra. O latifúndio. Olhando mais a frente, o arraialzinho de Morasti encontra-se rodeado de fortalezas; em círculos de dez quilômetros; surgem-nos outros arraialzinhos como Azeca, Soco, Adulam; Maresa e Laquês. A presença de militares e funcionários do Rei era frequente naquela região e, pelo que afirma o profeta, essa presença não era vista com bons olhos. Além do pagamento dos altos impostos; trabalhadores eram recrutados forçadamente a fazerem parte do exército para proteger a cidade Jerusalém (cf.3,10). A dominação dos grandes donos de terra, impostos altíssimos, roubos a mão armada por milicianos da época, trabalho escravagista, é o ambiente que se respirava.  
Sobre a posição social do Profeta Miqueias, era considerado “homem do campo (Smith). Homem simples do campo (Sellin), ou até situam nos círculos dos pequenos camponeses donos de rebanho, [que eram] oprimidos (Weiser). Wolf o julga personagem importante, tzaqen (justo) preocupado com as injustiças que sofrem seus irmãos. Seus argumentos não se mostram apodíticos [1] e talvez seja melhor manter o posicionamento de Rudolf: Miqueias pode ter sido camponês pobre, trabalhador do campo ou proprietário de pequenas terras [2]”. 
O livro de Miqueias situa seu profetismo durante os reinados de Joatão, Acaz e Ezequias, entre os anos 740-698. Neste contexto, a injustiça provocada pelos donos de terra (2,1-5) aconteceu em vários momentos neste cenário. De qualquer forma, relativamente, a data de atividade profética de Miqueias, ainda é debatida abertamente, ou seja, ainda não se tem um consenso pelos anos de atuação do profeta. Mas, segundo biblista José Maria Sicre: o texto 1,2-7 tem a Samaria capital do Reino do Norte; escrito entre 722 e 725, quando se inicia o cerco dominado dos Assírios. Por outro lado, temos a tradição do grupo do profeta Jeremias 26,18 que Miqueias atuou no tempo do rei Ezequias. Então podemos indicar como data aproximada da atividade do profeta Miqueias os anos de 727-701[3]. O profeta Isaías também foi contemporâneo do profeta Miqueias.  
A pregação de Miqueias concerne essencialmente á situação da moral religiosa de Judá. A falsa insegurança denuncia o profeta permanecendo fiel a Deus e a seu compromisso. O mal se tornou tão radical que a Samaria e Jerusalém aparecem como personificação do pecado (Mq 1,5).  
Na sua luta, Miqueias aparece como um homem solitário, só diante do povo cujo sofrimento partilha, só diante dos poderosos (sacerdotes, juízes e príncipes, cf. Mq 3), só diante dos profetas cegos que anunciam um futuro de felicidade e facilidade ( Mq 2,6-11 ). Mas enfrentam - os com coragem, e consciente de ser conduzido pelo Espírito do Senhor, que lhe dá a força de cumprir sua missão (Mq 3,8).     
                                                           
NOTAS REFERÊNCIAIS: 
[1] Apodítico: Diz se de uma verdade ou argumento evidentes por si, não necessitando de provas para serem compreendidos e aceitos. (LAPORTE, Ana Maria et al. Para Filosofar. São Paulo: Scipione, [S.d.], p. 305). http://verbofilosofico.blogspot.com.br/2011/03/apoditico.html <acessado 27 de maio 2016>.
[2] SICRE, José Luiz. Com os pobres da Terra. A Justiça Social dos Profetas de Israel. Tradução de Carlos Feliciano da Silveira. - Santo André. São Paulo: Ed. Academia Cristã Ltda; Paulus Editora, 2011, p. 324.
 [3] SICRE, José Luiz, p.325.   

Valdeci de Oliveira Biro é Pós-Graduado em Especialização Bíblica na Área de Assessoria e Metodologia Pelo CEBI e Faculdade EST: Escola Superior de Teologia Luterana de São Leopoldo-RS.
Membro da ABIB: Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica do Brasil-SP.
Apresenta o Programa especializado em Bíblia: Palavras e Mensagem na Rádio Sintonia do Vale 98,9 FM


domingo, 17 de julho de 2016

Miriam, uma história de luta do povo hebreu. João Crispim Victorio - CEBI-RJ/Sub-regional Campo Grande.

Miriam, uma história de luta do povo hebreu.

João Crispim Victorio[i]


Nos relatos Bíblicos[1] é comum encontrarmos, de maneira destacada, personagens masculinos, homens que foram instrumentos de Deus na caminhada e na preservação do seu povo. Mas existiram também as personagens femininas e, entre muitas, destaco aqui Miriam, por sua fé e capacidade de liderar, junto com seu irmão Moisés, a saída do povo hebreu da escravidão do Egito. Miriam, após a libertação do povo hebreu[2], foi uma grande líder durante a travessia no deserto, foi orientadora, animadora e consoladora entre as mulheres. Sofreu com a hanseníase (lepra) por ter ofendido a Deus e a Moisés, mas percebeu seu erro, arrependeu-se e viveu ainda por muitos anos cumprindo seu papel de liderança entre os seus.
São nos textos do Antigo Testamento[3], mais precisamente no Pentateuco[4], com exceção do livro de Gênesis, que vamos conhecer a história de Miriam e do povo hebreu. Povo que se distinguiu de outros da antiguidade por sua crença no Deus único, crença que veio depois influenciar o judaímos, cristianismo e islamismo. Os hebreus, inicialmente, eram um grupo de pastores nômades, organizados em tribos formadas por pequenos clãs[5], chefiadas por patriarcas. Os principais patriarcas foram Abraão, Isaac e Jacó, também chamado Israel. Os hebreus deixaram a Mesopotâmia e se fixaram na Palestina, uma pequena faixa de terra, que se estendia pelo vale do rio Jordão. Viveram lá durante três séculos. Mas uma terrível seca atingiu toda a região obrigando-os a sair em busca de melhores condições de vida. Assim chegaram ao Egito[6].
Nas terras do Egito, os hebreus foram recebidos por José, o filho de Jacó e Raquel (Gn 30, 22 - 24), que por ironia anos antes fora vendido por seus irmãos como escravo aos mercadores ismaelitas e, esses, tempos depois o vendiam aos egípcios (Gn 37, 1 - 36). José conquistou a confiança de Potifar, o oficial da corte do faraó e chefe da guarda pessoal, que o comprou e com o passar do tempo tornou-se homem de confiança do Faraó (Gn 39, 1 - 6). Durante esse período os filhos de Jacó entraram no Egito e se multiplicaram tornando-se cada vez mais numeroros, a tal ponto que o Egito ficou repleto deles (Ex 1,7). Os faraós, que vieram pós José, passaram a limitar o crescimento do povo hebreu. Então os egípcios obrigavam os hebreus ao trabalho duro, tornando-lhes amarga a vida (Ex 1,13-14). Outra medida para conter o crescimento do povo de Israel foi ordenar as parteiras que matassem todos os meninos recém-nascidos (Ex 1, 22).
Nesse contexto, surge a figura de Miriam, irmã mais velha de Arão e de Moisés. Ela, ainda uma menina, vigiava o cesto colocado a propria sorte por sua mãe na margem do rio Nilo. Dentro estava seu irmão Moisés, fora escondido ali para evitar sua morte pelos soldados do faraó. Miriam, esperta, vê que o cesto é recolhido pela filha do faraó. Então, logo se apresenta oferecendo-se para ir buscar uma hebréia para cuidar do menino e chama a mãe (Ex 4, 1 - 10). Graças a esta mulher, que viveu toda sua vida em prol de sua família e seu povo temos hoje essa história cheia de conflitos, mas também de amor, companheirismo e solidariedade, verdadeiras lições de vida. Assim é a história de miriam e de seu povo.
 Mas é bom também lembrar-mos que no Antigo Testamento encontramos histórias de outras personagens femininas como Sara, Rebeca, Lia e Raquel, as chamadas matriarcas, mulheres que estiveram sempre em posição de liderança na formação da consciência do povo hebreu. A essas mulheres podemos incluir Débora, Ana, Rute, Judite, Ester, entre outras, que foram capazes de impulsionar com sabedoria e ao mesmo tempo com autoridade as forças de resistência do povo, mas que nas interpretações machistas dos textos estiveram sempre em segundo plano. Assim foi, também, Miriam. Mulher forte e de carater que ainda criança se ocupou dos problemas de injustiças que seu povo sofria em terras do Egito. Cheia de esperanças e confiança em Deus, juntou-se a seus irmãos Moisés e Arão na condução da grande marcha do povo hebreu para a libertação da escravidão no Egito (Mq 6, 4), rumo a Terra Prometida.
Miriam possuía muitos dons, como o da poesia e da música (Ex 15, 20 - 21), sendo assim, teve fundamental participação durante o êxodo[7] na organização do povo nos momentos de confraternização tocando, cantando e dançando. Não media esforços para ajudar a solucionar problemas, fossem eles dos mais simples aos mais complexos. Por isso, no reconhecimento do povo, sua liderança estava apenas abaixo de Moisés e de Arão, apesar da predominante cultura patriarcal, pois Deus era mais pronunciado como o Deus dos pais, Abraão, Isaac e Jacó, que o Deus de Sara, Rebeca, Lia e Raquel. Desde essa época, como podemos verificar, a mulher vem sendo excluída sistematicamente de todas as decisões do poder, seja ele político ou religioso.
A grande concentração masculina e patriarcal nos textos bíblicos, tanto do Antigo como no Novo Testamento, ofusca a imagem das mulheres que aparecem politicamente ativas cumprindo papel verdadeiramente revolucionário. Infelizmente em uma organização social machista o que enraizou no imaginário coletivo, de forma devastadora, são os relatos antifeministas. Cito alguns exemplos, a criação do homem e da mulher (Gn 1, 26 - 28), aqui a anterioridade de Adão é interpretada como superioridade masculina. A origem do mal (Gn 3, 6- 7), o texto quer mostrar que o mal está do lado da humanidade e não do lado de Deus. Mas a interpretação dada é que a mulher como sexo fraco, por isso ela foi seduzida e seduziu o homem. Está escrito nesse capítulo a razão da submissão histórica e ideologicamente justificado, “... a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará” (Gn 3, 16). Dentro da cultura patriarcal, Eva (mulher) é a grande sedutora e fonte do mal.
Miriam era uma líder e uma profetiza devotada a seus irmãos e a seu povo. Como qualquer outro ser humano também tinha virtudes e fraquezas. Cuidou de Moisés e manteve-se sempre a seu lado, fosse nos momentos de festas ou nos momentos mais difíceis de tomadas de decisões a respeito da vida do povo, a conexão entre ambos era muito forte, pois ela havia moldado sua vida. Miriam fica doente é acometida pela “lepra” e Moisés, seu irmão, intercede por ela pedindo a Deus que a cure. Durante esse período, Miriam é deixada fora do acampamento, o povo em consideração e respeito e lealdade a sua líder não partiu até ela voltasse (Nm 12, 15). Miriam, enquanto ser humano viveu todos os conflitos comuns a uma mulher e uma pessoa que interage de forma política na sociedade. Teve erros e acertos, mas podemos concluir que ela foi uma mulher poderosamente usada por Deus.
Mesmo nos momentos mais difíceis, Miriam não perdeu as esperanças de que um dia Moisés libertaria o povo hebreu da escravidão. Quando Miriam morre (Nm 20,1), Moisés se sente perdido e incapaz de suportar as lamúrias do povo. Então, comete o erro que o deixa fora da Terra Prometida. Moisés precisava de Miriam, assim como Miriam precisava de Moisés, ambos consolidavam o equilíbrio necessário na condução do povo. Então, fica claro que somos todos, homens e mulheres, na verdade complemento uns dos outros.
Mas assim como Miriam, que com sabedoria soube romper com preconceitos machistas, impostos à mulher de sua época, mostrando sua capacidade de liderar, precisamos nós, romper com o antifeminismo, centrado sobre a dominação masculina, o pecado e a morte[8]. Nesse sentido, devemos propor alternativas originais e positivas que favoreça uma nova relação com a vida, o poder, o sagrado e a identidade de gênero[9]. Resgatar o matriarcado e fazer uma releitura do mesmo na perspectiva de mudança de paradigma nas relações masculino/feminino pode possibilitar um ponto de equilíbrio maior entre tais valores para os dias atuais. Para tanto, devemos desconstruir o que destrói a harmonia masculino/feminino e construir novas práticas civilizatórias e humanizadoras para ambos os gêneros.

Rio de Janeiro, 15 de Julho de 2016.




[1] Todas as citações bíblicas são da Bíblia Edição Pastoral das Edições Paulinas, SP - 1990.

[2] O termo hebreu indica a condição social de estar a margem, ou seja, marginalizado. Pois significa "gente do outro lado do rio”, isto é, do rio Eufrates. Os hebreus são povos semitas originários da Mesopotâmia que passou pela Babilônia e pela Síria, mas se estabeleceram e viveram no Oriente Médio cerca do segundo milênio a.C. e que mais tarde originou os semitas como os judeus e os árabes, mas posteriormente o termo hebreu foi associado somente ao povo judeu.

[3] Antigo Testamento ou Velho Testamento é a primeira parte da Bíblia. O mesmo é constituído por 46 livros, na versão usada pelos católicos, e por 39 livros, na versão usada pelos protestantes.

[4] Pentateuco é uma palavra grega “pentateuchos”, que significa “cinco volumes” que é usada para designar os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. O Pentateuco é chamado pelos judeus de livros da “Lei” ou Torá.

[5] Clãs é um grupo de pessoas unidas devido a um determinado grau de parentesco, definido pela descendência de um ancestral comum.

[6] Ildo Bohn Gass (Org). Uma introdução à Bíblia: Formação do Povo de Israel. Vol 2. 2ª ed – 2011.
[7] Êxodo é o nome dado para a saída de um grupo de pessoas de uma região para outra. Nesse sentido, o segundo livro da Bíblia, denominado Êxodo, conta a história sobre a fuga dos hebreus da escravidão que sofriam no Egito, entre 1300 e 1250 a.C. O protagonista das narrações é Moisés, que teria liderado o povo hebreu de volta à Canaã, a “Terra Prometida”.

[8] Boff, Leonardo. A porção feminina de Jesus. Disponível em: www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/MA/article. visitado em: 11/7/2016.

[9] Na sociedade, identidade de gênero se refere ao gênero em que a pessoa se identifica,  como sendo um homem, uma mulher ou se ela vê a si como fora do convencional, mas pode também ser usado para referir-se ao gênero que certa pessoa atribui ao indivíduo tendo como base o que tal pessoa reconhece como indicações de papel social de gênero (roupas, corte de cabelo, etc...).





[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta. Membro do CEBI-RJ/Sub-regional Campo Grande.